Pessoas idosas e suicídio: cinco passos para a perda do eu

Perceber o que as estatísticas nos dizem é um bom começo para entender o crescente fenômeno do suicídio de pessoas idosas. Mas a frieza dos números não nos possibilita olhar para o fato de o suicídio ser um processo e, como tal, ter um início, um meio e um fim.

Esse processo é o que se pode chamar de “perda do eu”.

Ser não é apenas existir e se perceber como tal. Ser é um complexo que envolve todas as circunstâncias da vida e é justamente quando começamos a perder essas circunstâncias que definem nosso “eu” que começamos o processo que, para alguns, pode levar ao suicídio.

A primeira dessas circunstâncias – que a meu ver talvez seja a mais importante – é a perda do sentido de utilidade. E essa perda se manifesta naquilo que mais forma um ser humano: o trabalho.

A aposentadoria – ou, quiçá pior ainda, perder o emprego – atinge diretamente não apenas a dignidade, mas o próprio senso de “ser útil”, de ser “produtivo”. Passamos 30, 40, 50 anos produtivos e, de uma hora para outra, nos vemos afastados de tudo. Raramente temos a oportunidade de nos prepararmos para a aposentadoria. Nossa sociedade cria a vã ilusão de que a aposentadoria é um “prêmio” merecido. Não é!

A aposentadoria é, na realidade, a primeira etapa do processo de perda do eu. Nem todos – e diria a maioria – conseguem desenvolver atividades que deem sentido à vida após a aposentadoria. O vazio torna-se grande e leva junto uma boa parte do eu.

A segunda circunstância é o convívio social. Nossas relações sociais tendem a diminuir com o passar dos anos. Por diversas razões. Seja porque não ocupamos com o trabalho na maior parte do tempo, seja porque desenvolvemos uma tendência de sermos mais “caseiros”. E, claro, por questões de saúde, que podem nos impedir de “saracotear” por aí. Estar em grupos – como coletivos e comunidades pode não ser tarefa fácil para quem não desenvolveu isso ao longo da vida. O não convívio social aumenta o vazio existencial e carrega, junto, mais uma parte do eu.

A terceira circunstância são as amizades. Com o passar dos anos vamos “diminuindo” nosso grupo de amigos. Nos tornamos mais seletivos, mais resistentes à frivolidade, àquelas pessoas que, se antes admitíamos em nosso convívio, hoje não vemos mais razão para que os mantenhamos próximos. Embora o efeito positivo da qualidade dos poucos amigos, a perda da “quantidade” rouba outra parte do eu, pois mesmo não desejando mais ter “um milhão de amigos”, sentimos uma certa falta da quantidade.

A quarta circunstância ocorre na família. A perda de entes familiares pode ser devastadora a partir de certa idade. Ver familiares “indo” – e quanto mais próximos, pior – acelera a sensação de estar ficando sozinho no mundo. O luto tem sido – pesquisas com sobreviventes apontam – um fator importante para quem tenta ou comete suicídio. O luto rouba uma grande parcela do eu.

Por fim, a quinta circunstância é a percepção da finitude. Não por outra razão, recente pesquisa apontou que o maior índice de suicídios se dá entre o grupo de pessoas com mais de 80 anos, seguido do grupo com idade entre 70 e 79 anos.

Somos uma sociedade que não nos prepara para a morte. A expectativa da proximidade da morte pode ser insuportável para muita gente. A expectativa da morte rouba o que pode ter restado do eu. E, se além dessa expectativa, associarmos as demais circunstâncias, a vontade de tirar a própria vida toma conta completamente do eu.

A vida perde o “senso de utilidade”.

Claro que temos situações de impossibilidades físicas, demências e outras circunstâncias que levam ao suicídio. Mas, entre as pessoas com saúde, esses cinco passos, todos ou isoladamente, são fatais.

O que fazer, então, para evitar, ou ao menos diminuir as possiblidades de que pessoas idosas cometam/tentem suicídio?

Recuperar o senso de utilidade. Proporcionar que as pessoas sintam, novamente, que têm um propósito na vida e que poderão ser úteis socialmente.

O desenvolvimento das chamadas redes de apoio é fundamental nesse processo. E, também, uma grande transformação na sociedade, que ainda se recusa e ver que a velhice pode ser um tempo produtivo para as pessoas. O suicídio é uma questão de saúde pública. No mundo todo, mas por aqui parece não ser tratado com a seriedade que merece.

Somos uma sociedade que envelhece, mas que ainda não se vê assim. Por isso pouco fazemos para dar dignidade às pessoas idosas.

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